Um estudo publicado recentemente nos Estados Unidos reacendeu uma preocupação que vem mudando a forma como a medicina enxerga o AVC: ele está longe de ser um problema exclusivo de pessoas idosas.
Aos 30 ou 40 anos, poucas pessoas acordam pensando na possibilidade de sofrer um acidente vascular cerebral. Talvez justamente por isso os novos números tenham chamado tanta atenção.
Uma pesquisa publicada em setembro na revista científica Neurology, da Academia Americana de Neurologia, acompanhou dados de adultos entre 20 e 54 anos e encontrou um aumento expressivo na ocorrência de AVC ao longo das últimas décadas. Na população analisada, a incidência quase dobrou.
O dado é americano e não deve ser simplesmente transferido para a realidade brasileira. Mas traz um alerta que interessa a qualquer pessoa jovem: idade, sozinha, não é um escudo contra o AVC.
Pressão alta, diabetes, colesterol elevado, obesidade e tabagismo já fazem parte da rotina de adultos cada vez mais jovens. Além disso, nessa faixa etária, o AVC pode estar relacionado a outras situações, como alterações cardíacas, problemas nos vasos do pescoço, distúrbios de coagulação e algumas doenças inflamatórias.
O que torna essa discussão ainda mais importante é que um adulto jovem nem sempre reconhece que aquilo que está sentindo pode ser uma emergência neurológica.
Um braço que perde a força de repente. A boca que fica torta. Uma fala que se torna enrolada. Uma alteração súbita da visão ou do equilíbrio, até uma dor de cabeça diferente do habitual. Diante desses sintomas, pensar “sou muito novo para ter um AVC” pode significar perder um tempo precioso.
E, quando se trata de AVC, tempo é cérebro.
Existem tratamentos capazes de reduzir significativamente as sequelas em determinados pacientes, mas eles dependem de uma avaliação rápida. Não é uma situação para esperar melhorar, dormir e observar no dia seguinte ou aguardar uma consulta.
O novo estudo também provoca uma reflexão que começa muito antes de uma emergência. Quantas pessoas com 30 ou 40 anos sabem como está sua pressão arterial? Quantas conhecem seus níveis de colesterol e glicemia? Quantas acreditam que esse tipo de preocupação pode ficar para depois?
Essa é justamente essa a principal mensagem.
Durante décadas aprendemos a associar o AVC à velhice. Os dados mais recentes mostram que está na hora de atualizar essa imagem.
O AVC pode chegar mais cedo. A prevenção também precisa começar mais cedo.
Dra. Nayara de Paula Guerreiro
Médica Neurologista | Fellowship em Cefaleias pela USP
CRM-SP 233494 | RQE 135460
Instagram: @NAYARA_GUERREIRO
